E já era 4 da manhã, as estrelas continuavam lá, o vento ainda era frio e meu corpo estava confortavelmente esticado na minha majestosa cama. Meus visinhos já paravam de pensar em seus cachorros bem educados e seus filhos. Já deixavam de chorar pela menina rica. As tvs pararam com suas insinuantes regras e as cortinas estavam fechadas. Tudo parecia como deveria parecer. Pelo que me lembro tinha um sono agradável, sem muitas pausas e sem muitos sonhos. Mas lá no fundo sentia um grito sofrido, abstrato, que foi aumentando e logo se tornou o suficiente para abrir meus olhos. Do lado de fora, longe da minha cama, dos meus lençóis e travesseiros, mas bem perto daquele frio gelado, ela gritava insistentemente. E gritava, e gritava o mais alto que poderia. E já era 4 da manhã. Suas palavras talvez eu não lembre, ou simplesmente não importam. Só reparei na sua agressividade, na sua freqüência, aquele grito de garganta seca, de fome e de frio. Pus-me a caminhar pelo meu lustrado piso de madeira para tentar me comover com aquela imagem tão pouco vista. Um transbordar de verdade. E lá estava ela, entre sacos e lixo, entre o vento e o asfalto. E lá estava eu, no alto de 7 andares atrás de protetores vidros limpos. E focos de luz começam a surgir, um a um. Agora já são gritos de ordem. “Volte para seu lugar” ele dizia. “Cale a boca, sua louca” a dona exclamava. E eu via todas aquelas mãos, mãos nos olhos, ou na outra boca, mãos quentes e agressivas. Mãos desconfortáveis. Pena dessa gente, essa gente que foi acordada às 4 da manhã por uma louca criada por essa pobre gente. Louca de solidão e de olhos fechados. Que pena dessa gente que sai de seus lençóis de linho, que esfregam os olhos às 4 da manhã. E já era 4 da manhã. Oh, que pena dessa gente que descobre o frio da noite e a frieza do asfalto vazio no meio da noite. E ela gritava, gritava um texto imenso de poucas e aleatórias palavras. Como seria sua pele...Pena dessa gente que cria essa gente, que não sabe calar, cuidar dessa gente, não sabe. Tão pouco, que voltemos aos nossos televisores.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
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