
Aposentei-me de tudo e de todos, me ausentei por tempo indeterminado e em estado de inércia fiquei pelo resto dos dias. Ignorei os sentidos, os sons e pedidos. Distrai-me nas regras e protocolos. Disfarcei, enfim, de nada.
Primeira vez Nessa forma estranha
Um olhar perdido no meio daquela multidão que ia para lugar algum, ou em direção ao breu. Tudo se movia rapidamente junto com o pulso. Pulso abandonado. E aquele olhar ia se perdendo entre pernas e mãos. Suado ia se jogando as traças, aos truques dos pouco inteligentes. Ora ou outra se divertia com os saborosos importunos alheios, e os beijava, beijava sempre, mas nunca para sempre. Se deixava levar pelas musicas cantadas a beira da orelha. Sentia cócegas com as barbas, farpas e cuspidas. E lá ia, olhos, olhos coloridos de quem nem sabia que os tinha. De mãos atadas, ia, sem parar, sem olhar para ninguém. Mas o pulso batia, batia mais forte que as fortes passadas da multidão. E aquela inquietude ia tomando o pulso, os dedos, o fôlego. E já não havia mais barbas suficientes e as canções se esgotaram. E é tão difícil prestar atenção em algo. Tão tão difícil. Será que teus olhos trombarão com os meus, surgirão no meio desse acumulado de corpos de fumaça. E esse pulso que não para de bater, acalma-te.
O dia estava tipicamente nublado e todos os olhos encharcados de desespero cotidiano. No rodar das coisas um ponto destoante brilhava no centro da cidade. Seu nome ninguém se atreva a pronunciar. Seu sorriso era disfarçado e suas bochechas criavam um tom rosado peculiar. As mães tampavam os olhos de seus infantis maridos. As crianças corriam para lugar algum. Os cães sarnentos cantavam e no meio da praça dourada uma confusão de cheiros e temperaturas transbordava.O ponto de luz continuava esticado no centro de tudo com um ar indiferente. De nada sabia, de formas, formulas, fábulas ou fantasias.Sua família o abandonará. Seu rude brilho acabará com a tv e o radio. Seu tio, o mais velho, enlouquecerá e suas donas entediaram-se.Logo a nuvem negra pairou sobre o asfalto e a multidão aplaudirá para direções aleatórias com lábios abertos e orgulhosos dentes amarelos a mostra. Uma temperatura morna e suficiente chegará com a poeira trazida. E os cães latiam. O ponto no meio da praça chuvosa foi-se acamando, esmagando. E as donas chorando, porque é assim que se deve ser. Um por um foi-se indo para seus prazerosos despercebidos afazeres. De olhos fechados e sorriso no rosto, com lágrimas obrigatórias. As crianças perdidas e os cachorros mortos cheirando a rosas. E do ponto luminoso tão pouco sobrou. Um grão de areia tão tão longe do mar.








27/03/08




