sábado, 7 de junho de 2008

Texto Sem Fim

E seu nome, qual era? Nunca ninguém se atrevera a me apresentar figura tão bizarra. Dias e dias eu a via atravessando a rua com seu andar torto, suas mãos tensas e seu cabelo intacto. Na chuva ela costumava andar mais lentamente e os pingos molhados caiam em sua testa, atravessavam seus rosto imperfeito e escorriam bem ao lado de sua boca rosada, quase opaca. De longe eu via seus olhos parados no ar, sua roupa balançava com o pouco vento, e seus calçados sempre eram divertidos de reparar. Seu sorriso não existia, mas de qualquer forma ela parecia estar bem. Todas as quartas discretamente ela roubava uma ou duas rosas do jardim ao lado, as quintas comprava bombons do velho moço da padaria e aos sábados eu ficava só. Não. Aos sábados ela sumia. O dia todo me debruçava em minha enferrujada janela, via o sol nascer, via a rua ficar amarela, via todos caminhando pelos paralelepípedos, mas ela...Logo a rua ficava cinza, logo tudo ia ficando rápido e sincronizado, minha janela ficava pequena e meus olhos assustados. No domingo, pela manhã ela surgia, meus olhos abriam e os dela estavam vermelhos. Seus passos pareciam ensaiados e suas roupas pesadas. Daí eu lhe perguntava, de longe e silenciosamente, ela virava o rosto calmamente, descia da calçada e continuava. Segunda lá estava ela...E lá estava eu. Suas roupas voltavam a ser coloridas, meu sorriso a ser bobo. O mundo voltava a sua velocidade calma e o sol quase sempre aparecia. E tudo ficava perfeito novamente, e tudo era agradável de se ver lá de cima. Na ultima terça, eu quis mais, minha curiosidade subiu pelo meu pé, sacudiu minhas pernas, quando já tinha arrepiado meus pelos, chegou aos meus olhos e tudo sumiu. Daí desci os treze andares naquele elevador de madeira, com o medo de cair, e a esperei do outro lado da rua. Logo ela surge, hoje ela esta de branco, com fita no cabelo e com as sapatilhas que mais gosto. Seu rosto demonstra uma certa confusão ao me ver, nem vejo e a pego para dançar. No meio da rua. A encho de perguntas, despejo todas as frases que criei. Dou centenas de piruetas, e me espremo ao máximo para impressioná-la. Ela ri, nervosa, me beija na testa e some entre o reflexo do sol naquele chão cinza. Nunca mais o branco, nunca mais as fitas.Hoje brinco com a luz que entra pela janela fechada e desenha em meu teto.

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